8. MUNDO 28.11.12

NADA JUSTIFICA ESTA BARBRIE

Conflito entre Israel e Hamas em Gaza repete cenas do passado, mas abre chance para a paz com novos atores polticos
Mariana Queiroz Barboza

 DOIS LADOS - Na outra pgina, palestinos observam os destroos de uma casa bombardeada; abaixo, arrastam o corpo de um suspeito traidor

Os tiros ouvidos nas ruas de Gaza na noite da quarta-feira 21 destoavam do barulho das exploses que ecoavam havia oito dias na cidade palestina. Desta vez, o clima era de comemorao. Tanto Israel quanto o Hamas, partido islmico que controla a regio, haviam concordado em encerrar as hostilidades mtuas, depois que ao menos 162 palestinos e cinco israelenses foram dados como mortos. O acordo de cessar-fogo, mediado por Estados Unidos e Egito, suspendia, pelo menos temporariamente, as cenas de barbrie que circularam pelo mundo em mais um episdio do sangrento conflito entre israelenses e palestinos. O enfrentamento dos ltimos dias  uma repetio do que ocorreu em 2008 e 2009, quando o derramamento de sangue atingiu mais de 1.400 palestinos. De um lado, o Hamas insiste em lanar foguetes e msseis de curta distncia, deixando cidades ao sul de Israel em situaes de vulnerabilidade. De outro, a resposta israelense  sempre marcada pela morte de muitos inocentes. Desta vez, uma famlia perdeu 11 de seus membros, dos quais quatro eram crianas.

A ofensiva recomeou com o assassinato do chefe militar do Hamas, Ahmed Jabari, na quarta-feira 14. A emboscada que o derrubou foi armada a dois meses das eleies gerais israelenses. O ataque foi interpretado como uma tentativa do primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, de consolidar sua base de apoio poltico, principalmente nas cidades que fazem fronteira com Gaza, ao enfraquecer a infraestrutura do Hamas em mais uma demonstrao de seu poder blico. Os lderes do movimento islmico disseram, naquele momento, que a ao abriu as portas do inferno e novos ataques se seguiram  prontamente respondidos, com violncia maior, pelos israelenses. Em geral, o povo israelense apoia investidas militares contra a Palestina, afirma Guilherme Casares, professor de Relaes Internacionais das Faculdades Rio Branco. Segundo o jornal Jerusalem Post, esse apoio  compartilhado por 85% da populao. No por acaso, h uma escalada de tenses em vsperas de eleio, diz Casares.
 
Se os ganhos domsticos da ao militar israelense s sero conhecidos depois das eleies, os analistas concordam que, perante a comunidade internacional, a imagem de Israel se deteriorou. Alm da violncia sem limites dos ataques a Gaza, o bloqueio econmico imposto pelos israelenses  cidade continua a relegar milhares de palestinos  condio de misria. O acordo firmado na semana passada prev a flexibilizao do bloqueio para facilitar o transporte de bens e pessoas. O Hamas, em contrapartida, emerge como um ator poltico legtimo, em detrimento da pacfica Autoridade Palestina, apoiado por pases como Egito, Turquia e Qatar. Liderado pela Irmandade Muulmana, fundadora do Hamas, o Egito foi fundamental para a paz. O Egito ps-Primavera rabe  um apoiador terico do Hamas, mas incapaz de sustent-lo materialmente, porque sofre com a sua economia, disse  ISTO o especialista em Egito do Washington Institute, Eric Trager. Ao mesmo tempo,  improvvel que ele abra mo de uma relao diplomtica com Israel.

